7.11.04

A Aurora

" Nas lentas madrugadas de Inverno, quando os galos acordados vêem as primeiras rosas da aurora e as saúdam, galantes, Platero, farto de dormir, relincha longamente. Como é doce o seu longínquo despertar, na luz celeste que entra pelas frinchas do meu quarto! Desejoso também do dia, na minha cama fofa, eu penso no sol.
E penso no que seria do pobre Platero, se em vez de cair nas minhas mãos de poeta tivesse caído nas desses carvoeiros que vão, ainda de noite, pela áspera neve dos caminhos solitários, roçar pinheiros nos montes; ou nas desses ciganos andrajosos que pintam os burros e lhes dão arsénico e espetam alfinetes nas orelhas para que elas não caiam.
Platero relincha novamente. Saberá que penso nele? Que me importa? Na ternura do amanhecer a sua lembrança é-me grata como a aurora. E, graças a Deus, ele tem um curral quente e macio, amável como o meu pensamento "


Juan Ramón Jiménez (1881-1958)

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